sábado, dezembro 11, 2004

Imprensa: CML leva 288 sem-abrigo ao teatro

Notícia do jornal Público, da jornalista Inês Boaventura: Sem-abrigo de Lisboa Foram ao Teatro: Com muitas palmas, gargalhadas e comentários, 258 lisboetas sem tecto assistiram anteontem à peça "Picasso e Einstein". "É como uma luz ao fim do túnel que a gente vê muito ao longe." Por Inês Boaventura
Um encontro fictício entre os jovens Albert Einstein e Pablo Picasso, levado à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, foi testemunhado anteontem por um público irrequieto, de gargalhada solta e resposta pronta, entusiasmado com a hipótese pouco comum de usufruir de uma ida ao teatro esquecendo por uma noite a condição de sem-abrigo.
Descontraídos como se tratasse de uma actividade corriqueira, ou vestidos a preceito para a ocasião quase festiva, 258 sem-abrigo da cidade de Lisboa não quiserem desperdiçar a oportunidade de assistir à peça "Picasso e Einstein". Um momento fugaz e memorável, uma actividade capaz de contribuir para "devolver a dignidade perdida e criar o gosto pelas coisas boas da vida", como resume João Taveira, assessor da vereadora da Acção Social, acrescentando que "a reinserção não se faz só com cama e pão".
Entusiasmado e expectante, decidido a não perder pitada de uma noite muito ansiada, o público preencheu com rapidez e antecedência os lugares da plateia do Teatro da Trindade, permitindo que a peça arrancasse pontualmente às 21h30. A entrada em palco de cada actor, ou mesmo o seu regresso com uma nova vestimenta, era saudado entusiasticamente com palmas e nem os espirros a fingir ficavam sem resposta da assistência.
Num texto cómico com muitas referências a encontros sexuais e onde o vinho marcava presença constante nas mesas do café parisiense em que decorria a acção, o público pautou-se por uma resposta pronta, soltando sonoras gargalhadas ou comentários despudorados. E se a frase "quero beber vinho bom mas pagá-lo ao preço do vinho mau" foi recebida com um prolongado aplauso, mais entusiástica foi a reacção ao desempenho da actriz Sofia de Portugal, a quem o despir de uma camisola valeu muitos assobios e a alcunha de "brasa".
Igualmente saudados foram os momentos musicais, como a recriação de "I wanna be loved by you" por uma Marilyn Monroe com um esvoaçante vestido branco ou de "Blue suede shoes" por um Elvis Presley descido dos céus.
"Foi giro", comentava no final um dos espectadores, contido e sem conseguir destacar o que mais tinha gostado, enquanto fazia um esforço vão por recordar há quantos anos tinha assistido pela última vez a uma peça de teatro.
"Você veio logo ter com um gago. Já viu o azar?", comentava o sem-abrigo, que neste momento vive num abrigo na Graça, visivelmente envergonhado com a dificuldade evidente com que respondia às questões sobre a peça a que assistira. "Foi giro", disse mais uma vez, entre duas dentadas numa sandes de carne assada, e com os olhos postos nas mesas colocadas no átrio do teatro com bolos, salgados, sumos e fumegantes tigelas de caldo-verde.
Mais expansivo e conversador, um outro espectador, fã confesso de teatro, classificou a peça como "um espectáculo bonito", acrescentando que transmitiu "uma mensagem de fé e esperança no futuro". "É como uma luz ao fim do túnel que a gente vê muito ao longe", comentava com um sorriso conformado, guardando para uma outra noite os pormenores de uma vida errante, enquanto se preparava para regressar ao centro de acolhimento onde vive há cinco meses.